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Politicamente incorreto
Ultimamente tenho assistido ao Big
Brother Brasil 10 e percebido que de 10 o programa só tem o
nome – aquilo é 0! Em vez de aprender, desaprendemos. O
programa, na realidade, presta um desserviço à população.
Incrível como a edição que se propunha a ser a mais diversa
e educativa em relação à sexualidade acabou se tornando a
mais conservadora e preconceituosa de todas. O resultado da
semana passada (de 23/02), por exemplo, reafirmou a vigência
no país de valores conservadores acerca da sexualidade entre
o público que assiste o programa – 55% dos 77 milhões de
votos eliminaram Angélica, a moça lésbica. Pior do que isso:
mantiveram o Dourado, um cara já conhecido do público como
misógino e homofóbico.
Particularmente não acho que a razão
para saída de Angélica tenha sido a lesbofobia ou que o
público a tenha tirado por sua orientação sexual. Não posso
afirmar que tenha sido isto que mais pesou no resultado. Mas
posso afirmar, com certeza, que se vivêssemos em um país
onde sua população reprove a misoginia, o machismo, a
homofobia ou qualquer tipo de desigualdade de gênero – como
os países nórdicos, por exemplo – o Dourado é que tinha sido
eliminado. No programa de ontem (02/03), por exemplo, ele
foi “emparedado” com duas outras mulheres. E apesar de ter
sido ele o participante que afirmou em cadeia nacional que
quebraria o dedo de outra participante (por acaso, a
Angélica) se estivesse fora da casa, e ter dito “pérolas”
como “homens heterossexuais não contraem HIV” e
“homossexualidade é opção”, ele mais uma vez se safou com
ótima margem de votos favoráveis à sua permanência (apenas
11% dos 92 milhões de votos foram pela saída dele do
programa). Da noite para o dia, ele se tornou herói
nacional, o bom moço – autêntico e boa praça.
Concordo com a análise de meu amigo
Cláudio Nascimento: “Ele é um exemplo do machismo no
Brasil, mas é apenas a ponta de um iceberg que ainda associa
os homossexuais à Aids e que trata a mulher como objeto. Sua
manutenção no programa sinaliza que, em parte, a sociedade
comunga com as suas opiniões”.
Sim, sabemos que vivemos em uma
sociedade machista e patriarcal, mas isto não quer dizer que
devamos permanecer assim pra sempre. Pra isso existem os
movimentos sociais, como o feminista e o LGBT, e a
permanência do Dourado coloca em risco o trabalho de décadas
destes movimentos.
É claro que não se deve votar em
ninguém – mesmo sendo pela permanência de alguém no BBB –
por conta da orientação sexual ou cor desta pessoa, mas
convenhamos.... Eliminar a Angélica e a Cacau e deixar o
Dourado já é demais, não é? Parece que as pessoas estão se
opondo ao “politicamente correto” e isto é um risco.
Então, depois de dar a vitória ao
Dourado no BBB 10 – o que pode acontecer, infelizmente –
vamos estar habituados a fatos como o acontecido na Uniban e
outras Geyses serão avacalhadas nas universidades, no
supermercado, na academia etc. O mundo é dos homens
heterossexuais mais toscos e brucutus?
Se bem que levanto aqui uma suspeita:
não foi estranha a eliminação de ontem (02/03) da Cacau?
Será que tem alguma relação com o fato de ter “rolado um
clima” entre ela e a Angélica? Mais estranho ainda foi a
votação de 92 milhões de votos. Normalmente recordes como
esse acontecem quando existem dois fortes opositores se
enfrentando no “paredão”, e os votos são mais ou menos
divididos depois de uma disputa acirrada. Ontem não
aconteceu isso – Cacau recebeu 62% destes 92 milhões, a
problemática da Lia 26% e o “adorável” Dourado 11%. Ou seja,
pessoas votaram quase 92 milhões de vezes para tirar um só
participante? Ela foi quase unanimidade dessa votação toda?
Desta vez francamente acho que houve manipulação de
resultados, só gostaria de saber qual a culpa da moça.
*Well Castilhos é jornalista e ativistae LGBT, nascido
em Porto Alegre, mora no Rio, onde coordena o website do
Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos
Humanos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (CLAM/UERJ)
–
www.clam.org.br – e o blog Santa Diversidade (www.santadiversidade.blogspot.com)
e milita no Movimento LGBT carioca.
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